Cerca de 90% das pacientes com câncer de mama relatam dificuldade na regulação para hospitais, feita em postos de saúde.

“Perdi muito tempo”, constata a professora de Educação Física Lania Galvão, de 48 anos, ao relembrar as etapas do diagnóstico de seu câncer de mama. Depois de sentir um caroço no seio em 2015, ela só conseguiu consulta com ginecologista numa clínica da família em novembro de 2016. E, sete meses depois, em junho do ano passado, fez um ultrassom. O tumor já tinha cinco centímetros.

— Recebi o laudo da biópsia no dia 4 de agosto e fui informada de que precisaria voltar para a clínica da família, onde iriam me cadastrar no Sistema Estadual de Regulação (SER) para ser encaminhada a um hospital que trata câncer — conta Lania.

É nesta etapa que cerca de 90% das 200 mulheres acompanhadas por uma pesquisa realizada no Rio Imagem, entre julho e dezembro de 2017, relatam dificuldade. Nas unidades básicas de saúde, elas são inseridas no SER para marcação de consulta em hospital que trata câncer.

— Além disso, todas declararam não saber qual era o próximo passo a ser seguido após receber o diagnóstico. Elas são orientadas a retornar após 60 dias para descobrir onde foram reguladas ou a aguardar por um telefonema. Ou seja, todas as respostas referem-se a esperar, e o esperar é inimigo do câncer de mama — diz Sandra Gioia, coordenadora do estudo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia Regional do Rio.

A pesquisa mostrou também que todas as pacientes desconheciam a lei que determina o prazo máximo de 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento. E o pior: 85% dos profissionais de saúde também ignoravam a legislação, que como o EXTRA mostrou neste domingo, no primeiro dia da série “Uma luta dolorosa”, não é cumprida em 70% dos casos no Rio.

De acordo com o levantamento, o tempo médio entre a entrega do laudo da biópsia e a inserção da paciente no SER, pelos postos de saúde, foi de dez dias, com registros de até 30 dias nesse intervalo.

— O ideal seria que a unidade que dá o laudo da biópsia já incluísse a paciente no SER, mas questões burocráticas impedem que isso aconteça — diz a médica.

Segundo ela, há relatos de postos sem internet, médicos que fazem a regulação e só vão à unidade a cada 15 dias e vaga zero no sistema:

— Não há centros de referência suficientes para todos no Rio de Janeiro. Há pacientes que sequer estão na fila.

Para a epidemiologista Inês Echenique Mattos, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o número de hospitais credenciados pelo SUS para tratar câncer é pequeno diante da demanda, que é crescente.

— A idade é um fator de risco para câncer. Quanto mais idosos, mais diagnósticos vamos fazer. Se a rede não dá conta agora, no futuro, menos ainda.

Sandra, que implantou no Rio Imagem, com apoio da ONG americana Global Cancer Institute, o Programa de Navegação de Paciente (PNP), encaminhou uma série de sugestões ao governo estadual para tentar acelerar a chegada das pacientes ao tratamento. Entre elas, a entrega de relatórios detalhados à paciente para inserção no SER, com estadiamento clínico e solicitação de exames para otimizar o início do tratamento.

— As unidades primárias e secundárias (municipais e estaduais) podem e devem otimizar todos os exames possíveis para que o tratamento da paciente seja em tempo oportuno. Não dá mais para continuarmos vendo pacientes com doença avançada chegando tão tardiamente aos centros de referência — diz Sandra.

A Secretaria municipal de Saúde (SMS) afirma que as pacientes precisam retornar aos postos para serem incluídas no SER porque a unidade de atenção primária é a “ordenadora do cuidado da população de seu território” e o retorno da mulher “reforça a continuidade e permite o seu acompanhamento pela estratégia Saúde da Família desde o diagnóstico até o fim do tratamento”. Sobre a demora para regulação, a SMS respondeu que “depende da ampliação de oferta global, incluindo aumento de polos de diagnósticos, com concomitante ampliação de oferta e capacidade de resolução, a serviços de atenção oncológica, com capacidade cirúrgica para quimioterapia e radioterapia”. Com relação à internet, a pasta afirma que está melhorando a tecnologia.

 

Lania fez quimioterapia e foi submetida a uma mastectomia radical no último dia 10 de abril
Lania fez quimioterapia e foi submetida a uma mastectomia radical no último dia 10 de abril Foto: Márcia Foletto

 

‘O bonito disso tudo é que estou viva’

“Mostrar a minha cicatriz não é questão de coragem. É questão de entender que isso faz parte da minha história, que não vou deixar de ser mais ou menos mulher por causa disso. É só uma fase, e a gente precisa passar por ela. Não tem que ter vergonha. (O seio) faz falta? Faz, sim. Não vou mentir. Olho, sinto falta. Não acho bonito. Mas o bonito disso tudo é que estou viva. Antes da cirurgia, no último dia 10, passei pela quimioterapia. É um tratamento doloroso. Cai cabelo, dente, unha. Cai tudo! Mas vou me recuperar. Isso faz parte de mim agora. Temos que ser fortes e enfrentar, porque ninguém vai passar por isso pela gente. É levantar a cabeça e ir em frente”.

Fonte:https://extra.globo.com.

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