Ainda dá para virar o jogo?

O primeiro semestre passou sem o Brasil apresentar uma recuperação mais robusta da sua economia. Os números do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre frustraram as expectativas; as projeções de crescimento para o ano foram revisadas para baixo; a inflação continua desafiando o bolso dos brasileiros; os juros voltaram a subir; o câmbio mudou de tendência; e a balança comercial teve o pior desempenho em 18 anos.

Para completar, a onda de manifestações pelo país deve levar a um aumento de gastos públicos e complicar ainda mais a situação fiscal nos próximos meses. A dúvida que paira agora é se os próximos seis meses serão suficientes para virar o jogo e evitar que, como no ano passado, as projeções de crescimento continuem a cair em efeito dominó.

Pela sétima vez consecutiva, os analistas de mercado ouvidos pelo Banco Central reduziram a previsão de crescimento do PIB em 2013. A última aposta, divulgada na semana passada, é de um crescimento de 2,3%. Mas, ao que tudo indica, a divulgação, pelo IBGE, de uma queda em maio de 2% na produção industrial – mais forte que as expectativas – também acendeu o sinal de alerta de que pode vir aí uma nova rodada de cortes nas projeções. A Gazeta do Povo ouviu economistas para tentar traçar um cenário para os próximos meses. Acompanhe:

PIB

A percepção geral, entre os analistas, é de que a frustração com a economia foi inflada pelas próprias expectativas geradas pelo governo, de um crescimento de 3,5%. “O otimismo exagerado do ministro Guido Mantega (Fazenda) ajuda a explicar um pouco da sensação de que as coisas não vão bem. Mas está claro que o Brasil não está vivendo uma crise. Crescer 2,3%, por outro lado, é pouco”, diz Marcelo Curado, professor de Economia da UFPR.

A previsão é de uma melhora no segundo semestre, puxada pelo aumento dos gastos públicos e uma ligeira retomada do consumo, que foi mal no começo do ano. “Há um ‘efeito carregamento’ do PIB, que faz com que parte desse crescimento já esteja dado. Mas não teremos grandes novidades no segundo semestre”, diz Thais Marzola Zara, economista-chefe da Rosenberg Consultores Associados.

“O ano repete 2012 no sentido de que começamos animados e terminamos desanimados”, diz Fernando Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Acho que a economia pode crescer menos de 2%”, diz.

Inflação

O governo esperava que a queda nos preços das commodities e o aumento da oferta ajudassem a conter a inflação nos próximos meses, mas o câmbio surgiu como um fator de pressão. Dólar mais alto encarece produtos importados e matérias-primas. Por outro lado, os cortes nas tarifas de transporte devem suavizar a inflação. Mas, em linhas gerais, ela continuará alta, fechando o ano entre 5,8% e 6%. O IPCA mostra que a inflação em 12 meses estourou o teto em junho, ao chegar a 6,7%. “Parece que o centro da meta deixou de ser um objetivo, que passou a ser não ultrapassar o teto”, diz Marcelo Curado, da UFPR.

Juros

O Banco Central deve dar sinais mais claros de que mantém um compromisso mais forte com a política monetária, como forma também de dar uma resposta política aos que consideram que a autoridade monetária afrouxou em relação ao controle da inflação. Isso significa que a alta de juros não deve ser interrompida tão cedo. As apostas de mercado são de que a Selic, hoje em 8% ao ano, possa chegar a 9,75% em dezembro.

Balança comercial

Os sinais de melhora da economia nos Estados Unidos e de alguns países da Europa devem contrabalançar a desaceleração da demanda da China. Mas o ano deve fechar com resultados fracos nas exportações. Mesmo com câmbio mais favorável, perdas de produtividade na indústria reduziram a competitividade das empresas lá fora. As exportações de manufaturados se mantêm com tendência negativa. O primeiro semestre fechou com um déficit na balança comercial de US$ 3 bilhões, o pior em 18 anos.

Emprego

O desemprego deve aumentar um pouco, de 5,8% para algo perto de 6%, mas continuará em patamares historicamente baixos. A questão, segundo os analistas, é o tipo de emprego que está sendo gerado, com baixa qualificação e remuneração. “A grande pergunta que todos se fazem é até quando o mercado de trabalho continuará com taxa de desemprego baixa. O vigor desse setor vem surpreendendo, embora os últimos números demonstrem certa desaceleração. Mas não haverá uma ruptura abrupta”, diz Barbosa Filho, do Ibre/FGV.

Contas do governo

O governo poupa cada vez menos e tem usado várias man

obras para garantir os números do superávit primário (economia feita para pagar juros da dívida), como exclusão dos gastos do PAC e antecipação de receita das estatais. Com a proximidade do ano eleitoral e a pressão vinda das manifestações por cortes de tarifas, dificilmente o governo conseguirá impor maior rigor fiscal até o fim do ano, segundo analistas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse na sexta-feira que o governo deve anunciar um corte de R$ 15 bilhões em custeio para alcançar superávit de 2,3% do PIB, mas os economistas acreditam que será difícil atingir esse objetivo.

Câmbio

A recuperação da economia americana já provoca uma valorização do dólar em relação às demais moedas. Para analistas, esse novo padrão veio para ficar. “Acredito que possa haver ainda alguns momentos de maior estresse, mas trata-se de um novo patamar. Projetamos um câmbio a R$ 2,20 no fim de 2013”, diz Thais Marzola Zara, da Rosenberg Consultores Associados.

Fonte:Gazeta do Povo.com

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